Fonte: Observatório da Imprensa/Vermelho
Mais uma briga de cachorro grande na mídia brasileira.
E mais uma vez o leitor fica ao sabor dos acontecimentos,
porque o que está sendo publicado é apenas uma parte
da questão. Tanto um lado como o outro têm estratégias
bem definidas e objetivos claros.
Só que os objetivos não têm nada a ver com questões
religiosas e nem preocupações com a informação do leitor.
Tanto a Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd) como
os jornais que publicaram reportagens sobre os negócios
do bispo Edir Macedo estão preocupadas mesmo é com as
conseqüências financeiras da polêmica.
A Iurd está preocupada com os efeitos que as denúncias
da Folha, bem como dois outros jornais - um do Rio e
outro da Bahia -, possam ter nas parcerias corporativas
necessárias para a expansão do império econômico fundado
pelo bispo Macedo.
Por seu lado, a Folha e os demais jornais temem que
a onda de processos judiciais contra a jornalista Elvira
Lobato e os repórteres Bruno Thys (jornal Extra, RJ)
e Walmar Hupsel Filho (A Tarde, BA), autores de três
reportagens diferentes, acabe saindo muito caro em indenizações
e custos judiciais.
A estratégia de ambos os lados é esgrimir o conceito
de liberdade: a religiosa e a de imprensa. São dois
argumentos de peso em matéria de estratégia de marketing
político, mas frágeis em termos de conteúdo. As reportagens
não ameaçam a liberdade religiosa no país, no máximo
os negócios do bispo Macedo, da mesma forma que as ações
judiciais interpostas por fiéis da Iurd não ameaçam
as liberdades da imprensa e de informação.
Enquanto isto, os leitores (pelo menos os do Observatório)
fazem uma leitura diferente da questão. Não mostram
simpatias com a Igreja Universal, mas também não poupam
a imprensa. Muitos fazem uma ligação entre o episódio
Iurd/Folha com a polêmica Nassif/Veja.
É impossível saber se os leitores que postam comentários
na página do Observatório podem ser considerados representativos
ou não da blogosfera brasileira. Não há pesquisas sobre
isto. O que se pode ver é que também noutros sites,
como o Comunique-se e o Blog do Noblat, uma boa parcela
de leitores não está comprando, incondicionalmente,
a versão dos jornais, e nem está apoiando o bispo Macedo.
Isto mostra que um segmento do público leitor brasileiro
começa a dar sinais de maturidade para experimentar
fórmulas colaborativas de produção de informações, uma
das grandes inovações introduzidas pela Web.
Este caso da polêmica entre a Iurd e três jornais brasileiros
pode servir de aprendizado inicial para quem desejar
testar a nova modalidade de produção de noticias. Claro
que cada leitor tem sua posição. O problema não é ter
opinião, e sim oferecer novos fatos, dados e notícias
sobre situações que conhecemos pouco, para que este
material possa ser transformado em informação por meio
da interação entre os protagonistas.
Os leitores já devem ter visto que a fase do bate-boca
cansa rapidamente e geralmente cria mais dissidências
do que comunidades. Por que então não experimentar deixar
de lado a paixão e preocupar-se com a realidade, porque
é o conhecimento dela que nos está faltando há muito
tempo? A Web nos dá esta possibilidade de produzir informação.