Um a um, oito homens chegam à sala de aula no andar
de cima da igreja. Ali, todas as noites de quinta-feira,
eles participam de uma reunião. O ambiente é pesado,
e não poderia ser de outra maneira. “Meu nome é Kevin.
Sou um viciado por sexo em processo de recuperação”,
inicia um dos participantes sentados ao redor da mesa.
Em seguida, cada homem fala por cerca de cinco minutos
sobre como tem enfrentado as tentações na área sexual.
O que os leva a abrir o coração acerca de uma área tão
delicada de suas vidas não são aquelas situações comuns
enfrentadas por muitos crentes, como os apelos eróticos
da mídia ou um eventual assédio no ambiente de trabalho.
O problema é muito mais grave – todos eles são atormentados
por compulsão sexual. Tornaram-se vítimas de um desejo
lascivo insaciável que os leva a trair suas esposas
e até a se envolver com prostitutas.
O pequeno grupo local faz parte de uma crescente rede
de homens que, ao redor dos Estados Unidos, buscam ajuda
através do ministério chamado Operation Integrity (Operação
Integridade). Ninguém está autorizado a dar conselhos,
criticar, defender ou desculpar o comportamento de um
companheiro durante estes encontros semanais, que em
média duram 90 minutos. O trabalho é baseado na fé e
no estabelecimento de etapas de recuperação. É bom que
se diga que ninguém ali é acusado de crimes como pedofilia
ou atentado ao pudor. Trata-se de homens respeitáveis,
pais de família exemplares e profissionais zelosos.
Gente envolvida com o Evangelho, que ocupa os bancos
das igrejas aos domingos e até exerce cargos eclesiásticos.
Mas poucos têm a coragem de confessar as taras e os
hábitos sexuais destrutivos aos seus pastores, mulheres
e filhos.
As reuniões da Operação Integridade (OI) como esta,
realizada na Coast Hills Community Church, uma grande
igreja não-denominacional em Aliso Viejo, no sul da
Califórnia, são na verdade a última esperança para muitos
deles. Após compartilhar suas histórias, os participantes
do movimento se revezam para ler parágrafros do livro
When Lost Men Come Home” (“Quando homens perdidos voltam
para casa”), escrito pelo fundador do ministério, David
Zailer. A partir daí, tem início uma conversa franca.
Os depoimentos, em sua maioria, mostram que os envolvidos
apresentaram progressos desde que começaram a freqüentar
o grupo, mas nenhum ainda chegou àquele almejado estágio
da libertação do problema. Fé e força de vontade são
fundamentais no processo, assim como a solidariedade.
Ao fim da tarde, os participantes trocam abraços e palavras
de incentivo. “Estamos todos nesta trincheira juntos”
diz Sonny, um dos participantes, após a reunião. “Eu
me fortaleço através destes homens”.
“Homens desesperados” – Zailer, o fundador da
Operação Integridade, convidou Christianity Today
a participar de uma das sessões, que são confidenciais.
Por isso, os outros nomes citados nesta reportagem são
fictícios. Ele é claro ao dizer que os encontros de
nada adiantarão se não houver total envolvimento. “Precisamos
ser o mais honestos possível. Um homem pode aparecer
por sentir-se culpado, ou porque a mulher o obrigou
a vir ou ainda por ter boas intenções. Mas se ele não
estiver quebrantado, não ficará. Nosso programa é para
homens desesperados”, explica. Embora não esteja classificada
no Manual Diagnóstico e Estatístico dos Distúrbios
Mentais, a chamada adição sexual é amplamente reconhecida
como um problema. Especialistas dizem que este tipo
de distúrbio é definido pelo comportamento obsessivo,
independente de suas conseqüências negativas para a
própria pessoa ou suas relações. Na verdade, o viciado
em sexo típico é aquele indivíduo que já tentou parar
mas não obteve sucesso – e, no caso dos cristãos, tal
comportamento costuma trazer profundo sentimento de
culpa.
“Acontece que o viciado em sexo não odeia a si mesmo
ou a seu pecado o suficiente para abandonar o vício”,
continua Zailer, que fundou a Operação Integridade em
2001. Evidentemente, fala por experiência própria. Criado
no Evangelho, ele foi abusado sexualmente aos oito anos
de idade por um amigo de sua família, membro da mesma
igreja. Na adolescência, tornou-se dependente de álcool,
cocaína e crack. Mais tarde, passou cinco anos atuando
em filmes pornográficos, valendo-se de sua imagem atraente
e da boa compleição física. Como pena alternativa a
uma condenação de oito anos de prisão por envolvimento
com drogas, Zailer passou 18 meses em um programa de
tratamento. Enquanto tentava parar com seu vício sexual,
ele tornou-se mais obsessivo quanto ao sexo: “Eu fiz
diversos compromissos de parar”, revela. “Mas não houve
quantidade suficiente de determinação pessoal ou atividade
religiosa que me protegesse”.
Zailer encontrou poucos no círculo da igreja que estivessem
dispostos a conversar honestamente sobre pecados sexuais.
Então, elaborou doze passos que, no seu entender, seriam
capazes de libertar gente como ele. Este processo está
na base do trabalho do ministério. Todos os envolvidos
mantêm uma lista telefônica e desenvolvem suas próprias
amizades dentro do grupo. O homem que precisa de ajuda
começa a ter contato com um mentor, muitas vezes diariamente.
A rotina de Zailer é pesada. Ele trabalha como construtor
de piscinas e recebe, diariamente, dezenas de ligações
de pessoas que buscam encorajamento. Algumas vezes,
a conversa é rápida, apenas para saber se vai tudo bem.
Em outras ocasiões, contudo, a confissão de um drama
e o posterior aconselhamento podem levar horas.
Império dos sentidos – Autoridade amplamente
reconhecida quando o assunto é a ajuda à compulsivos
sexuais, Patrick Carnes, autor e diretor executivo do
Gentle Path Program, estima que 8% dos homens adultos
e 3% das mulheres adultas tornam-se viciados em sexo
em algum momento de suas vidas – o que equivale a dizer
que, apenas nos Estados Unidos, cerca de 30 milhões
de homens apresentam algum distúrbio sério nesta área.
O obsessivo torna-se depedente da resposta neuroquímica
do corpo durante as mais variadas práticas sexuais,
o que inclui masturbação, parceiros múltiplos, exibicionismo,
voyeurismo, pornografia na internet e até crimes como
abuso sexual e estupro. A busca contínua por novas sensações
torna a vítima um escravo do sexo.
Conselheiros cristãos e psicólogos dizem que a extensão
do problema da adição sexual é a escassez de programas
de tratamento, o que faz com que milhões de freqüentadores
de igrejas, tanto homens como mulheres, continuem presos
ao problema por décadas. Por outro lado, a própria cultura
de Igreja, que proporciona poucas oportunidades para
tratar o pecado sexual, inibe a maioria das vítimas
de buscar solução ou compartilhar seu drama com os irmãos.
Geralmente, o compulsivo sexual não busca ajuda até
que uma crise ocorra – por exemplo, quando a esposa
descobre uma agenda repleta de telefones de mulheres
ou é demitido do emprego por acessar sites pornográficos
na internet. Há quem tenha sido pego no flagra – por
exemplo, navegando por sites pornô – pela família no
domingo pela manhã, antes de sair para a igreja.
Além da Operação Integridade, diversas organizações
cristãs voltadas para homens sexualmente compulsivos
começam a emergir. Já existem mais de 60 grupos do gênero
nos EUA, que se dedicam especificamente a ajudar quem
sofre de adição sexual. Os nomes das instituições sintetizam
a natureza do trabalho: Pure Warriors (Guerreiros Puros),
Pure Desire (Desejo de Pureza), Pure Life (Vida Pura),
Samson Society (Sociedade Sansão). Seus métodos diferem,
mas todos estes programas partilham a crença de que
um viciado em sexo é impotente para mudar seu comportamento
sozinho.
“Satanás adora quando pensamos que podemos derrotar
este problema sozinhos” diz Mark R. Laaser, autor do
livro Healing the Wounds of Sexual Addiction
(“Curando as feridas da adição sexual”). Para Nate Larkin,
fundador da Samson Society, um processo de adição pode
começar com a insatisfação conjugal. Mas afinal, o vício
sexual é mesmo um distúrbio ou simplesmente um tipo
de comportamento imoral? Bob Hugs, psicólogo clínico
de Laguna Hills, Califórnia, é porta-voz de muitos terapeutas
cristãos que enxergam a adição sexual tanto como uma
escolha pecaminosa quanto um distúrbio biológico. O
começo pode ser a repetição de um comportamento sexual.
“Essa adição pode se apropriar do indivíduo e roubar
sua vontade própria”, diz Hughes, que ajudou Zailer
em sua recuperação e já encaminhou trinta de seus pacientes
às reuniões da OI.
Douglas Weiss, 45 anos, diretor executivo do Centro
de Aconselhamento Heart to Heart, em Colorado Springs,
diz que o cérebro de um viciado não discerne se seu
comportamento sexual é moral ou imoral. Ex-compulsivo
sexual e sóbrio há 20 anos, Weiss conduz diariamente
seminários intensivos para que os viciados determinem
o perfil de sua adição – se a dinâmica é primeiramente
biológica, psicológica ou espiritual, se é baseada em
traumas ou relacionadas à repulsa sexual, ou uma combinação
de fatores.
Desafio à Igreja – Embora só tenha sido identificada
como distúrbio comportamental nas duas últimas décadas,
adição sexual já apresenta uma preocupante evolução.
Uma delas diz respeito ao perfil das vítimas. Até recentemente,
aqueles que sofreram abuso sexual na infância possuíam
maior probabilidade de se tornarem compulsivos, numa
espécie de tentativa de mudar o resultado do que lhes
aconteceu através de uma reprodução de comportamento.
Agora, uma das preocupações dos ministérios especializados
é a redução na média de idade dos compulsivos. Muitos
adquirem o vício já na adolescência.
Ao mesmo tempo, será que a Igreja pode ser verdadeiramente
eficaz se não é um lugar seguro para que um homem compartilhe
suas lutas? A política da tolerância zero adotada por
muitas denominações evangélicas – que consiste, em muitos
casos, na proibição peremptória à abordagem do assunto
– só dificulta as coisas. “A Igreja terá que decidir
se lutará para ser a noiva pura de Cristo” diz Stuart
Vogelman, diretor executivo do Pure Warrior Ministries
(Ministério Guerreiros Puros) de Valleyford, Washington.
“O silêncio é o maior inimigo da saúde sexual. Provavelmente,
esta será a batalha mais difícil que a igreja já enfrentou
e a maioria das comunidades cristãs não está equipada
para isso”, alerta.
“Existem homens feridos em todos os países, que tentam
curar suas feridas através do comportamento sexual compulsivo”
diz Vogelman, que passou 23 anos como um consultor internacional
de negócios na área da saúde. “Mas esses mesmos homens
envenenados pelo diabo estão saindo do poço para ministrar
a outros homens enquanto se recuperam”, sinaliza. “Essa
nova epidemia dá à Igreja uma oportunidade incomparável”,
ele diz. “O inimigo tem agido. Homens desesperados farão
o que for preciso para obter ajuda”. (Tradução de Karen
Bomilcar)
Compulsão é patologia
No Brasil, ainda não existem entidades cristãs organizadas
para prestar apoio espiritual a vítimas de compulsão
sexual. A lacuna costuma ser preenchida por ministérios
que atuam na área de família, nos quais o trabalho de
aconselhamento nem sempre aborda o tema especificamente.
Viciados em sexo têm à disposição serviços de natureza
secular, como o desenvolvido pelo Programa de Orientação
e Atendimento a Dependentes (Proad), mantido pela Universidade
Federal de São Paulo. A iniciativa surgiu em 1995 como
grupo de apoio a compulsivos sexuais, e hoje atende
gratuitamente cerca de 50 pessoas.
Quatorze destes pacientes estão submetendo-se a um estudo
que visa avaliar a eficácia do uso de antidepressivos
no tratamento da patologia. “Nós queremos dar fundamentação
científica para os resultados”, diz o coordenador do
Ambulatório de Tratamento do Sexo Patológico do Proad,
Aderbal Vieira Jr. Segundo ele, as causas da compulsão
são variáveis, podendo ser comportamentais ou neurológicas.
“O sexo compulsivo vem sendo estudado há 15 anos, o
que para a medicina é muito pouco”, admite o especialista.
Christianity Today International