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| * A Polícia Federal acusa Edir
Macedo, líder da Igreja Universal,de cometer crimes de falsidade
ideológica e de fraudar documento para negociar emissoras
de TV. |
(Fonte: Época) - O bispo Edir
Macedo, fundador e líder da Igreja Universal do Reino de
Deus, foi indiciado na semana passada pelos crimes de falsidade
ideológica e uso de documentos falsos. De acordo com o inquérito
produzido pela delegacia da Polícia Federal de Itajaí, em
Santa Catarina, Edir Macedo teria cometido esses crimes
ao transferir a propriedade de uma retransmissora da Rede
Record, a TV Vale do Itajaí.
O inquérito da PF acaba de chegar à mesa do procurador Marcelo
Mota, do Ministério Público Federal de Santa Catarina. Agora,
Mota deve analisar o trabalho da polícia e decidir se denuncia
ou não o bispo Macedo. Caso seja denunciado, Macedo se tornará
réu e deverá ir a julgamento. A pena para os crimes de falsidade
ideológica e de uso de documento falso pode chegar a cinco
anos de prisão.
O
delito cometido por Macedo, segundo a PF, seria o “preenchimento
abusivo” de um documento usado na transferência de propriedade
da emissora. Pelas regras do Ministério das Comunicações,
toda mudança no quadro societário das empresas de radiodifusão
precisa de autorização prévia. Ao transferir a propriedade
da TV Vale do Itajaí (foto à dir.) do nome de um ex-pastor
da igreja para o de outro bispo, esse pedido de autorização
teria sido feito, segundo a PF, por meio de um documento
falso: o bispo Macedo teria preenchido uma procuração em
branco, previamente assinada pelo ex-pastor. Se essa fraude
for comprovada, a concessão da TV Vale do Itajaí poderá
ser cassada, segundo afirma o advogado Ericson Meister Scorsin,
doutor em Direito pela Universidade de São Paulo e especialista
em Regulação dos Serviços de Radiodifusão.
A pedido de ÉPOCA, Scorsin analisou o relatório da PF. Sua
conclusão, emitida por meio de um parecer, é a seguinte:
“Havendo prova quanto à prática de ilícito criminal, caracterizado
pela falsidade documental em documento federal, há, sim,
reflexos sobre a habilitação da pessoa jurídica exploradora
do serviço de televisão. Trata-se de um forte motivo para
abertura de processo administrativo”.
Fundada por Edir Macedo em 1977, a Igreja Universal do Reino
de Deus tem 8 milhões de fiéis no Brasil. Com 4.700 templos
em 172 países, ela é mais globalizada que a rede de lanchonetes
McDonald’s, presente em 118 países. A legislação brasileira
não permite que igrejas sejam donas de empresas de radiodifusão.
Mesmo assim, Macedo controla a Rede Record. Em seu nome
e no de pastores da Universal estão 23 emissoras de TV e
40 de rádio. O processo em Itajaí pode ser uma pista de
como ele expandiu os negócios da igreja e como mantém a
fidelidade dos bispos e pastores, sócios das emissoras do
grupo.
O relatório final da PF sobre o caso de Itajaí levanta uma
dúvida: o que os agentes dizem ter descoberto é um fato
isolado ou uma prática usual do bispo Macedo para comandar
empresas de radiodifusão? Pelo roteiro descrito no relatório
da PF, é impossível chegar a uma conclusão. Mas os fatos
parecem comprometer o bispo.
Em 1998, Marcelo Nascente Pires, então pastor da Igreja
Universal e homem do grupo de confiança de Edir Macedo,
comprou participações societárias em duas emissoras em Santa
Catarina: a TV Vale do Itajaí e a Televisão Xanxerê Ltda.
As duas haviam passado pouco tempo antes a retransmitir
a programação da Record. Para conseguir o dinheiro necessário
para a compra, Marcelo Pires pedira um empréstimo de R$
350 mil à Cremo Empreendimentos, uma empresa de São Paulo
que pertence a religiosos ligados à Universal. Depois, Pires
se desentendeu com Edir Macedo. Ele deixou a Igreja Universal
em 2000. Dois anos mais tarde, Macedo, de acordo com o relatório
da PF, teria usado uma procuração assinada por Pires para
transferir a propriedade das duas emissoras para o nome
do então presidente da TV Record, bispo Honorilton Gonçalves.
Pires procurou a polícia e denunciou a suposta fraude. Afirmou
que a assinatura da procuração era dele, mas o conteúdo
do documento fora preenchido posteriormente. Questionado
por ÉPOCA, Pires não quis explicar as razões que o levaram
a assinar um documento em branco.
A procuração usada pelo bispo foi examinada pelo perito
particular Claus Guenter Rottschaefer, do Instituto de Criminalística
do Estado do Paraná, contratado por Pires. Também foi analisada
por peritos da Polícia Federal, a pedido do delegado Anníbal
Gaya, encarregado do caso. As duas perícias encontraram
indícios de que o documento teria sido fraudado. São eles:
1) o trecho com o nome das empresas que seriam vendidas
parece ter sido acrescentado posteriormente, numa tipologia
gráfica distinta;
2) a procuração é de 1996, mas, no documento, a TV Xanxerê
aparece com um nome (Televisão Xanxerê Ltda.) que só passou
a adotar em 1998. Antes, ela se chamava RCE Xanxerê Ltda.;
3) Marcelo Pires assinou o documento em 1996, mas sua firma
só foi reconhecida em cartório em 2003;
4) o trecho inicial da procuração cita “a empresa”, no singular,
como objeto da negociação. Em seguida, o documento menciona
três empresas, a Xanxerê, a TV Vale do Itajaí e a Rede Fênix
de Comunicação, uma associação formada pelas duas emissoras,
Xanxerê e Vale do Itajaí.
Edir Macedo foi procurado pela reportagem de ÉPOCA. Em nome
dele falou seu advogado, Arthur Lavigne. “Não é a primeira
vez que surge uma acusação contra Edir Macedo. A Justiça
sempre arquiva ou absolve meu cliente”, diz Lavigne. “Defendo
Macedo há 12 anos em vários processos, e ele nunca foi condenado.”
Em 1992, o bispo Edir Macedo ficou preso 12 dias, acusado
de charlatanismo, estelionato e lesão à crendice popular.
Ao final do processo, foi absolvido. Convocado pela PF mais
de uma vez para prestar depoimento, Macedo faltou a todas
as audiências. Seu advogado diz que ele faltava porque mora
nos Estados Unidos. O delegado Gaya, responsável pelo caso,
não quis fazer comentários. Disse que todas as informações
constam do inquérito enviado ao Ministério Público Federal.

O relatório da Polícia Federal (acima) formaliza o indiciamento
criminal de Macedo
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