CIDADE MEXICANA, AONDE
ACONTECE O "
CONGRESSO INTERNACIONAL DE BRUXARIA",
É DESTAQUE MUNDIAL PELAS PRÁTICAS DE MAGIA NEGRA E PELA
QUANTIDADE DE DEVOTOS PARTICIPANTES DAS MESMAS
Segundo
Alejandro Gallegos Garcia, tudo o que é necessário para
se matar um homem é uma boneca de pano preto, um pouco
de cordão, um osso humano e um sapo. Ah, e não se pode
esquecer de pedir a permissão do demônio, em pessoa, em
uma caverna nas montanhas na qual, segundo Gallegos, o
diabo aparece.
"A pessoa morre em 30
dias", garante Gallegos tranqüilamente, como se
estivesse falando sobre o conserto de um carburador com
defeito (aliás, o sapo também morre).
"No mundo há o bem e
o mal, o demônio e Deus", explica ele, enquanto
manipula uma presa de serpente com os seus dedos ásperos.
"Trabalho com magia
branca e magia negra. Mas têm pessoas que se dedicam apenas
ao mal".
Maria
Chima (esq.) faz um ritual de purificação em sua sobrinha
em igreja de Catemaco
Gallegos, 48, é um feiticeiro tradicional, um entre os vários
que atuam nesta pequena cidade idílica, próxima ao Golfo
do México, às margens do Lago Catemaco, no Estado de Veracruz.
Assim como muitas bruxas daqui, ele mistura tradições européias
e nativas no seu trabalho, um tipo especial de ocultismo
que aprendeu com o tio.
Na sua sala de trabalho apertada e feita de cimento, há
uma imagem da Virgem Maria e um grande crucifixo com um
Jesus ensangüentado. Uma estrela de seis pontas está pintada
no assoalho, com uma ferradura de um lado e uma cruz de
Santo André do outro. Velas dedicadas a vários santos entulham
a sua mesa, muitas delas atadas a fotografias. Algumas são
fotos de homens e mulheres cujo amor os clientes desejam
conquistar. Outras são de mulheres inférteis que querem
ter filhos. E há ainda fotografias de pessoas que padecem
doenças diversas, desde asma até câncer.
Debaixo da mesa Gallego guarda caixas velhas cheias de ervas,
cascas de árvores e raízes que já eram usadas nesta região
para curandeirismo muito antes de os seus ancestrais avistarem
Hernan Cortês.
Ele tem morcegos mortos, que são usados para certas poções
de amor, e cascavéis secas, para a cura de doenças. Gallegos
usa óleos extraídos de lagartos e tartarugas, línguas secas
de certos peixes, pele de coiote, ovos, galinhas, água benta
da igreja e água-nada-benta do lago. Ele conhece dezenas
de plantas nativas e as suas propriedades. E o feiticeiro
empunha o dente de uma cobra venenosa.
"
Isto é coisa dos tempos
antigos", diz Gallegos. "Havia bruxas aqui antes da chegada
dos espanhóis. Aqui existe uma mistura de tudo, até mesmo
de Deus".
Catemaco
é conhecida em todo o México como um centro de bruxaria
e, para a consternação de vários praticantes que levam esta
arte a sério, a mágica transformou-se em uma grande atração
turística. Nesta cidade é realizado na primeira sexta-feira
de todo mês de março o Congresso Internacional de Bruxas.
Motorista
de táxi é preparado por bruxo em Catemaco

Durante o evento, uma missa negra é celebrada na entrada
da caverna supostamente freqüentada pelo demônio. Uma estrela
enorme de seis pontas - eles a chamam de Estrela de Davi
- é incendiada, para a alegria dos fotógrafos. Políticos
aparecem para receber amuletos de boa sorte nas urnas. Os
crentes convergem para a cidade a fim de terem as suas auras
purificadas.
Sandra Lucia Aguilar, uma operadora de caixa de 25 anos
de idade, viajou 22 horas de Cancun até aqui para participar
da missa negra. Poucos dias depois ela estava na sala de
espera de um popular feiticeiro conhecido como "O Corvo",
em busca de um pouco de magia negra para trazer de volta
o ex-namorado.
"
Morei com ele durante
cinco anos, e, depois, da noite para o dia, ele foi embora
com outra mulher", conta Sandra. "
Quero-o
de volta. Ele me humilhou muito, e também quero humilhá-lo".
O Corvo é um indivíduo de olhar astuto chamado Hector Betaza
Dominguez, que usa camisa de estilo guayabera e senta-se
em uma sala iluminada por velas em meio a gravuras de La
Santa Muerte, um ícone mexicano cuja imagem - um esqueleto
vestido - lembra a representação pictórica tradicional da
morte.
Betaza diz que pessoas de todo o México e de importantes
cidades dos Estados Unidos com grandes comunidades mexicanas
vêm vê-lo. Muitos simplesmente desejam "
una
limpia", ou limpeza, para retirar espíritos ruins.
Mas a maioria sofre mesmo é de dor-de-cotovelo.
Quando lhe perguntam onde foi que ele aprendeu a sua arte,
Betaza, que se autodenomina um "
mestre
de ciências ocultas", torna-se evasivo, murmurando
algo a respeito de a sua mãe ter praticado magia. "
Isto
é uma coisa que você não aprende", diz ele. "
É
algo que se traz no sangue".
Mas nem todos estão convencidos. O padre Tomas Alonso Martinez
ocupa a posição nada invejável de chefe de paróquia em uma
cidade mais conhecida como um nicho de demônios e bruxas.
"Isso tudo é uma farsa, uma mentira, uma fraude", denuncia
o sacerdote.
Durante os seus cinco anos em Catemaco, Martinez diz que
viu as chamadas bruxas aplicarem todos os tipos de golpes,
arrancando dinheiro de pessoas ingênuas e vulneráveis.
Um truque comum é dizer ao indivíduo que ele está enfeitiçado
e, a seguir, remover o feitiço mediante o pagamento de uma
determinada quantia. Um outro é dizer às pessoas que elas
encontram-se doentes, e depois oferecer-lhes uma cura tradicional
por um preço elevado.
"
Eles atribuem a si próprios
poderes que não possuem", garante o padre. "
O
problema fundamental em relação a essas pessoas é que há
indivíduos que acreditam nelas. Qualquer um pode se passar
por feiticeiro".
Porém, até mesmo Martinez admite que, misturadas às práticas
questionáveis, há vestígios de um passado pré-hispânico.
O uso dos santos católicos também revela um sincretismo
de crenças, observa o padre.
Na sua igreja, uma imagem da Virgem Maria está colocada
em um nicho que fica atrás do altar. Antes da missa, muitos
vão até esse nicho e passam ervas sobre os corpos para purificarem-se.
Alguns deixam fotos de entes queridos, amuletos e rezas.
Esse sincretismo também emergiu claramente quando Gallegos
realizou um ritual de limpeza em uma tarde recente. O cliente
era um motorista de táxi chamado Santos Luna Cruz, que buscava
proteção contra os seus rivais invejosos.
Despido
da cintura para cima, Luna ficou de pé sobre um pedaço de
veludo colocado no centro de uma Estrela de Davi desenhada
com giz no chão. Em cada ponta da estrela havia uma vela
acesa. De um lado da estrela via-se uma ferradura e do outro
uma cruz de Santo André. Dois copos de água, que, segundo
os que acreditam no feitiço, absorvem espíritos malignos,
foram colocados diante de Luna.
Gallegos espargiu água benta, alho e amônia sobre o cliente.
Depois, entoando a reza católica comum dirigida "ao pai,
ao filho e ao Espírito Santo", e invocando uma longa lista
de santos, Gallegos segurou ovos de galinha sobre a cabeça
do homem e esfregou-os pelo corpo dele.
Estátua
de Jesus Malverde (boneco
sentado), 'padroeiro dos traficantes de drogas',
entre imagens religiosas.
Ele desenhou cruzes com arranhões feitos pelo seu dente
de serpente na face, nos braços e no abdômen de Luna. A
seguir Gallegos passou um fígado de galinha sobre a pele
do cliente. O feiticeiro borrifou água que trazia na boca
em um spray fino sobre o homem e o fustigou com um maço
de ervas.
Quando o ritual terminou, Luna, 34, sorriu e passou a mão
sobre o cabelo molhado. "
No
início fiquei nervoso, mas agora me sinto mais leve e melhor",
disse ele. "
Senti como
se ele estivesse retirando as más vibrações do meu corpo".
Gallegos apontou para dois ovos que se quebraram durante
o ritual. "
Quando os ovos
se quebraram, eles absorveram a dor que estava presa dentro
deste jovem", explicou o bruxo.
Fonte: Uol Notícias/Pr. Artur Eduardo