“Prepare-se
para conhecer algo estarrecedor: uma grande administradora
de cartões de crédito está desenvolvendo um microchip que
será implantado no corpo das pessoas. O novo sistema substituirá
dinheiro e talões de cheques como meio de pagamento. Quem
não tiver o chip instalado em seu organismo não poderá comprar
ou vender. A empresa está produzindo cerca de 1 bilhão de
aparelhos ao ano; dentro de pouco tempo, toda a humanidade
terá aderido ao novo sistema. Mas não se deixe enganar: isso,
que à primeira vista pode parecer uma maravilha tecnológica,
faz parte da estratégia de Lúcifer para arrebanhar adoradores
e criar um Estado totalitário global. O chip permitirá que
homens, mulheres e crianças sejam facilmente policiados, por
meio de um sistema de monitoramento que utilizará até satélites
espiões, como os usados na Guerra do Golfo.”
Você, que costuma acessar a Internet com certa freqüência
e está lendo agora esta matéria, com certeza já deve ter se
deparado com uma mensagem deste tipo na caixa de mensagens
de seu e-mail. Se ainda não recebeu, pode ficar tranqüilo
pois, mais dia menos dia, alguém se lembrará de você.
Semana retrasada, a reportagem do JC teve acesso a um e-mail
de autoria desconhecida cujo conteúdo era bastante parecido
ao texto colocado no início desta matéria. A mensagem falava
a respeito de um chip de pagamentos do tamanho de um grão
de arroz (7 milímetros de comprimento e 0,75 milímetro de
espessura) que estaria sendo implantado na mão direita e na
testa das pessoas.
Desenvolvido por uma multinacional fabricante de telefones
celulares em parceria com uma grande administradora de cartões
de crédito, o novo sistema funcionaria graças a uma bateria
de lítio que se recarrega com o calor humano.
Uma vez colocado no organismo, o chip jamais poderia vir a
ser retirado. O invólucro da bateria poderia se romper durante
a cirurgia e a pessoa acabaria sendo contaminada pelo lítio.
Além disso, um sistema de monitoramento global detectaria
que o chip foi removido e colocaria a polícia em alerta.
A mensagem citava, ainda, passagens do Apocalipse de João
referentes à chamada “marca da besta”. No capítulo 13 do livro,
o apóstolo conta ter visto, em um instante de arrebatamento
espiritual, “(...) subir da terra outra besta, com dois chifres
semelhantes aos de cordeiro, e que falava como o dragão”.
No decorrer do texto, João diz que a besta, depois de iludir
a humanidade com grandes milagres, ordenou a “(...) todos,
pequenos e grandes, ricos e pobres, que lhes fosse posto um
sinal na mão direita ou na testa”.
Quem não tivesse o sinal, o nome ou o número da besta em seu
corpo estaria proibido de comprar ou vender. Pelo que se vê,
as semelhanças entre o texto bíblico e o conteúdo da mensagem
citada anteriormente não são mera coincidência.
Linguagem simbólica
Para o jornalista e pesquisador da religião Luís Henrique
Marques, a proliferação de e-mails e sites que fazem referência
à ação do demônio e ao fim dos tempos é fruto de interpretações
literais das escrituras sagradas. “A Bíblia - principalmente
o Apocalipse de João - é escrita em linguagem altamente simbólica.
Se você tenta levar ao pé da letra os textos bíblicos, corre
o risco de cair em confusões”, diz ele, que é professor da
Universidade do Sagrado Coração (USC).
De acordo com Marques, o temor excessivo em relação ao mal
não é exclusivo de nossa época. “Na Baixa Idade Média (entre
os séculos 12 e 15), a publicidade em torno da figura do demônio
também era grande. Falava-se mais do diabo do que de Jesus
Cristo”, salienta.
A professora e pesquisadora da Universidade Estadual Paulista
(Unesp) de Bauru Dalva Aleixo Dias acredita que a propaganda
em torno da figura do demônio, existente nos dias de hoje,
funciona como uma espécie de resgate das grandes certezas
da humanidade, esfaceladas no final do século passado com
a queda do Muro de Berlim (1989).
“Antigamente, acreditava-se que o avanço tecnológico faria
com que o homem deixasse de acreditar em Deus. O que aconteceu
foi justamente o contrário: apesar de todo o desenvolvimento
técnico que a humanidade atingiu, o imponderável permaneceu.
Solitárias, as pessoas saíram em busca de um sentido coletivo
para o sofrimento a que estavam submetidas”, explica. Para
Dias, hoje o demônio ocuparia o papel de inimigo comum em
uma sociedade cada vez mais dominada pelas incertezas. |