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| * ‘A teologia da prosperidade é
demoníaca’ |
Depois
de reaparecer na televisão, agora ligado à Igreja Mundial
do Poder de Deus, Ronaldo Didini repudia parte do que acreditou
no passado.
Nos últimos meses, a notícia de que uma igreja assumiria
o controle de mais um canal da TV brasileira causou burburinho.
Trata-se da Igreja Mundial do Poder de Deus (IMPD), comandada
pelo seu apóstolo Valdemiro Santiago, egresso da Igreja
Universal do Reino de Deus. A denominação assumiu o controle
da Rede 21. Um dos grupos neopentecostais com crescimento
mais rápido no país, a IMPD iniciou as transmissões disposta
a se expandir ainda mais. O slogan da nova emissora – “Vem
pra cá, Brasil” – já sugere o caráter do empreendimento.
O carro-chefe da programação são os cultos, cheios de imagens
de exorcismo e curas, promovidos por Valdemiro.
Na telinha, ele chama as pessoas à plataforma, abraça-as
e chora com elas, num ambiente que mistura comoção e alguma
histeria. O investimento da IMPD em mídia é mantido em sigilo
absoluto, mas comenta-se no mercado que chegaria a 4 milhões
de reais mensais.
Tamanho investimento vale a pena? Para o pastor Ronaldo
Didini, sim. Quando a Igreja Universal comprou a Record,
há quase 20 anos, foi ele, na época pastor da denominação
de Edir Macedo, quem esteve à frente das negociações. Naquela
emissora, comandou o 25ª hora, programa que marcou
época na radiodifusão evangélica. Dali, ligou-se à Igreja
Internacional da Graça de Deus, comandada pelo missionário
Romildo Ribeiro Soares, onde colaborou na implantação da
Nossa TV e da Rede Internacional de Televisão (RIT). Agora,
depois de servir de interlocutor e sacramentar o negócio
entre o Grupo Bandeirantes e a Mundial, ele é o gestor da
Rede 21. Inteligente e bem articulado, Didini apresenta
o programa Hora Brasil, exibido diariamente entre
meia-noite e 1h30. “É uma continuação do que fazia no 25ª
Hora”, define.
Aos 51 anos, casado e pai de duas filhas, Didini considera
a televisão um poderoso instrumento para a evangelização.
Sua trajetória chama a atenção não apenas por sua especialidade
em TV evangélica, mas também por sua migração denominacional.
Tendo peregrinado por igrejas como Universal, Graça e agora
a Mundial do Poder de Deus – fora o período em que esteve
em Portugal, onde montou a dirigiu a Igreja do Caminho –,
ele conhece como poucos o mundo do neopentecostalismo. “Não
nego meu passado, mas amadureci”, diz o religioso. Hoje,
Didini é um detrator da teologia da prosperidade, que, segundo
ele, é um câncer que está consumindo a Igreja brasileira.
“E muitos pastores a defendem abertamente em rede nacional.
É o que existe de pior na televisão do país”, critica. O
religioso recebeu a reportagem de CRISTIANISMO HOJE em sua
nova casa no bairro do Morumbi, em São Paulo:
CRISTIANISMO
HOJE – O senhor tornou-se uma referência para a m´dia evangélica
por ter comandado o 25ª Hora, exibido pela Rede Record nos
anos 1990. Como foi aquela experiência?
RONALDO DIDINI – Foi uma experiência riquíssima, tanto do
ponto de vista religioso como sociológico. Aquela foi a
primeira vez que pastores evangélicos discutiram abertamente
com a sociedade todos os problemas do nosso tempo. Quebramos
barreiras, pois deixamos claro que o evangélico é um cidadão
como qualquer outro. Ali, falávamos abertamente sobre qualquer
assunto, como sexo e política, coisas então consideradas
tabu em nosso meio, sem perder o compromisso com os valores
da Palavra.
Como o senhor avalia a
programação evangélica feita hoje no Brasil?
O que existe de melhor, a meu ver, é a combinação que a
Igreja Mundial do Poder de Deus faz entre proclamação da
Palavra e demonstração do poder de Deus. Também gosto de
alguns programas que estudam a Bíblia nas madrugadas. Um
exemplo são os programas de Silas Malafaia naquele horário,
onde ele recebe pastores e gente interessante. Os peixes
mais graúdos são os que estão ligados na madrugada. Quando
alguém prega com mansidão e de maneira equilibrada nesse
horário, em que a pessoa liga a TV porque precisa ouvir
a Palavra, não há quem não se quebrante.
Com a entrada maciça dos
evangélicos na televisão, não há uma “guerra santa” pela
audiência?
Não creio. Por mais que o homem fale, quem está no controle
da Igreja é o Espírito Santo. Mas podemos fazer uma leitura
diferente do que acontece no Brasil. Em 1985, acabou o regime
militar. As pessoas esperavam por algo novo, desejavam mudanças,
inclusive na esfera espiritual, já que a presença católica
era hegemônica. A abertura também trouxe esse novo momento,
em que as igrejas passaram a ter liberdade para usar os
meios de comunicação. Houve imaturidade, inconsistência?
Sim. A sociedade e a Igreja não souberam medir isso. Por
outro lado, a liberdade foi também exacerbada. Há dez anos,
as crianças estavam dançando na boquinha da garrafa por
causa da TV. Hoje, amadurecemos e não se vê mais isso. Acho
que o mesmo aconteceu com a Igreja Evangélica em seu crescimento;
agora, é preciso colocar os pés no chão.
Comenta-se à boca miúda
que R.R.Soares paga R$ 5 milhões mensais à Bandeirantes
e que Malafaia desembolsa outro tanto. Há informações de
que sua igreja teria um investimento em TV estimado em 4
milhões por mês. Essas cifras são reais?
Não acredito que sejam reais, até porque, nesse caso, o
mercado seria super-inflacionado e não haveria condições
de se pagar tanto. O próprio mercado publicitário não teria
condições de concorrer com esses valores. Vivo no meio e
posso dizer que falam de números muito mais altos que os
reais.
O Hora Brasil tem
a mesma proposta do 25ª Hora?
O Hora Brasil funciona como se fosse um termômetro.
Obviamente, do 25ª Hora para cá, a sociedade evoluiu
muito. Hoje, cerca de 30% da população é evangélica. Eu
chamo a sociedade para dialogar sobre assuntos religiosos,
médicos, problemas sociais. Estou fazendo jornalismo e já
pude observar algo interessante: uma preocupação generalizada
com a preservação da família. Pessoas com as mais diferentes
linhas de pensamento estão preocupados com o destino das
famílias, com seus valores – ao contrário do que a mídia
em geral incentiva, que é a falta de compromisso, a infidelidade
conjugal, o individualismo e a libertinagem, que tanto marcam
nosso tempo. Mas o Brasil não é uma Sodoma ou Gomorra. Isso
é resultado do esforço feito ao longo dos anos por homens
e mulheres de Deus para pregar o Evangelho, e que levou
ao boom dos crentes na mídia. Os especialistas criticam
esse avanço, mas ele é uma âncora de valores há muito esquecidos
e desprestigiados. Infelizmente, esse avanço tem dois lados:
o positivo, do qual já falei, e o negativo, que são os escândalos.
Mas Jesus já disse que escândalos viriam. Temos que nos
preocupar com os “ais” que os sucederão, para que não sejamos
seus causadores. É preciso haver limites.
Quais são esses limites?
Fiquei assustado com o que fez o pastor Marcos Feliciano
em seu programa. Ao mesmo tempo em que pregava o Evangelho,
ele anunciava terrenos para as pessoas comprarem em prestações,
dizendo que Deus abençoaria aquela compra. Isso ultrapassa
o limite. Ao mesmo tempo em que se anuncia a salvação, vincula-se
isso à venda de produtos para receber a bênção de Deus.
Lógico que aquele comercial está sendo pago. Feliciano ultrapassou
a barreira ética. Para mim, isso é o que existe de mais
vulgar na teologia da prosperidade. A igreja precisa de
fundos? Sim. Mas de onde vêm? Dos dízimos e ofertas. Apenas
eles têm fundamento bíblico. Sem esse pastor perceber, creio
que o próprio Deus o fez tropeçar para expor a nudez desses
cruéis ensinos. A teologia da prosperidade é um câncer no
segmento evangélico.
Por que o senhor critica
tanto a teologia da prosperidade?
Porque ela é demoníaca. Penso que os líderes evangélicos
deveriam se unir e dar um basta nesses ensinos. A teologia
da prosperidade bateu no fundo do poço e já deveria haver
uma conscientização de muitos líderes acerca disso. Todos
que optam por esse caminho ficam satisfeitos apenas em ir
bem financeiramente, não ter sofrimento de nenhum tipo.
Querem ficar independentes, achando que não precisam de
mais nada. Os pregadores da prosperidade não têm contato
com o povo e não enxergam isso, porque são pobres, cegos,
miseráveis e estão nus. O homem não tem que ditar regras
a Deus e dizer a ele como e a que horas fazer o milagre.
Minha crítica a essa teologia é que ela proclama aquilo
que é terreno e não o que é sagrado, sobrenatural. Com o
tempo, tal mensagem se desgasta e o resultado está aí. Eu
fui missionário em nações muito pobres da África. Por que
a teologia da prosperidade não funciona lá? Para responder
essa questão, o teólogo da prosperidade não está preparado.
Se não funciona lá, ela é antibíblica. Jesus falou que é
mais fácil um camelo passar pelo fundo da agulha do que
um rico entrar no Reino dos Céus. Ora, se a teologia da
prosperidade fosse bíblica, todos seriam ricos e quase ninguém
acabaria salvo. Pregar e acreditar na teologia da prosperidade
é como construir um castelo na areia ou fazer um gigante
com pés de barro – mais cedo ou mais tarde, tudo cairá.
Mas durante muito tempo
o senhor militou em igrejas propagadoras da teologia da
prosperidade... Quem mudou, suas ex-igrejas ou o senhor?
Não mudei o meu pensamento. Foi a obra do Espírito Santo
que me amadureceu. Sou muito grato por tudo que recebi na
Igreja Universal e na Igreja da Graça. Não tenho nada contra
essas instituições e nem contra seus líderes. Minha diferença
é doutrinária. Uma coisa é enxergar, e outra é mudar, se
for preciso, sair do sistema, quando ele se torna mais poderoso
do que a Bíblia. O catolicismo está cheio de exemplos assim.
Todos os padres sabem que não é uma bula papal que pode
dizer que o líder é infalível ou que Maria subiu ao céu
com seu corpo. Mas o sistema Católico Apostólico Romano
requer que essa doutrina seja aceita, e muitos a defendem
em nome desse sistema.
O senhor não teme ser considerado
ingrato por seus ex-líderes?
Como eu disse, nada tenho contra Macedo ou Soares. Tanto,
que quando eu saí da Universal, foi como que se perdesse
meu chão. A Iurd para mim era mais importante que qualquer
outra coisa na vida; eu amava aquele ministério, dava minha
vida por ele. Depois, conheci a Igreja da Graça. O missionário
Soares me ajudou muito naquela época, pastoreando minha
vida por dois anos. Foi um verdadeiro pai, preocupando-se
com minha alma, porque eu não estava bem espiritualmente.
A teologia da prosperidade me fez um mal tremendo. Continuei
caindo e bati no fundo do poço quando abri a igreja lá em
Portugal [a Igreja do Caminho, inaugurada por Didini
em Lisboa em 2003]. Estava sozinho com minha mulher
e duas malas de roupas começando uma igreja na periferia.
Então, aprendi que ou dependia de Deus ou o meu ministério
ia acabar. Deus me ensinou muito naqueles cinco anos, até
me colocar ao lado do apóstolo Valdemiro.
O bispo Renato Suhett,
que saiu atirando da Universal e até abriu uma igreja onde
criticava abertamente o que chamava de “sistema religioso”
montado por Edir Macedo, acaba de voltar à Iurd. O senhor
já foi chamado para retornar á Universal?
Nunca fui chamado para retornar à Igreja Universal, até
porque já disse publicamente que não tenho interesse em
regressar. Aqui, na Mundial, é como que se eu tivesse voltado
para a Iurd em que comecei nos anos 80, uma igreja viva.
Creio que, se o Suhett voltou, sabe o que está fazendo.
Mas eu estou em casa agora.
Rupturas no seio neopentecostal
são comuns. Macedo e Soares começaram juntos na Cruzada
do Caminho Eterno, saíram e fundaram a Universal, de onde
o último desligou-se para fundar a Igreja da Graça. Valdemiro
também é oriundo da Universal; o próprio Macedo começou
na Nova Vida, de onde também saiu Miguel Ângelo, que dali
fundou a Cristo Vive. As justificativas para a dança de
cadeiras são sempre semelhantes, como a de divergências
teológicas ou mudanças de visão – contudo, as novas igrejas
que surgem acabam trazendo muito das denominações de origem,
inclusive os aspectos que criticavam. O que acarreta tantas
rupturas?
Uma árvore pode ter muitos ramos, muitos galhos. O importante
é observar o que Jesus fala em João 15, e estar alicerçado
nos ensinos de Cristo e na prática da verdade. Quando a
igreja nasce pela vontade humana, para ser uma maneira de
levar a vida, é complicado. Paulo também defende sua autoridade
apostólica em Cristo. Por isso, não interessa quem pregou,
se foi Paulo, Pedro ou Apolo – o importante é estar firmado
em Jesus. No fim das contas, vejo que muitas ramificações
poderiam ser evitadas se houvesse menos vaidade humana e
mais compromisso com a videira verdadeira que é Jesus.
Então, as divisões acontecem
porque cada um quer ter seu próprio espaço?
Nem sempre. O que o dedo faz, os olhos não podem fazer.
Não importa a função de cada um; importa que Cristo seja
o cabeça do corpo. A Igreja Mundial, por exemplo, tem uma
função que as outras igrejas mais tradicionais ou adeptas
de ensinos não ortodoxos não podem cumprir. Mas no momento
em que algum órgão do corpo adoece, todo o organismo passa
a sofrer. A Igreja de Cristo hoje precisa se voltar para
a mensagem original e entender o recado: o agricultor é
o Pai e a videira aqui é Jesus. Então, vamos parar de vaidade!
Eu, por exemplo, quando assumi a Igreja Internacional da
Graça de Deus em Portugal, tornei-me vice-presidente vitalício
da denominação. Poderia hoje reivindicar isso, já que nunca
renunciei. Mas jamais chegaria lá e tentaria tomar a igreja.
O verdadeiro pastor é Jesus. Acredito que se existir essa
consciência, haverá menos ramificações.
Pode explicar como foi
sua adesão à Igreja Mundial?
Sou amicíssimo do apóstolo Valdemiro. Talvez seja uma das
pessoas mais chegadas a ele, fora sua família. Mas não vim
para cá só pela amizade. Nunca daria certo. Primeiro, reconheci
que a Mundial era um movimento de fé muito forte, e depois
comecei a observá-la. Fiz quatro viagens para o Brasil e
observei claramente o reavivamento bíblico no século 21.
Depois veio a fase mais difícil, a de submeter-me à autoridade
espiritual dele, sendo seu amigo. Então, peguei a chave
da minha igreja e dei na mão dele, dizendo: “Seu trabalho
é maior que o meu. Você é mais importante que eu em Portugal”.
E vim para ajudá-lo com os dons que Deus me deu. Acredito
que estou em uma fase na qual Deus não quer me ensinar mais.
É hora de dar frutos, pois ele já investiu muito em mim.
O senhor tem salário na
igreja?
Não. Tenho funções executivas na Igreja Mundial, mas não
sou funcionário, não recebo qualquer benefício financeiro.
Então, de onde vem seu
sustento?
Sou contratado como jornalista pela Rede Bandeirantes. Pela
misericórdia de Deus, eu moro numa boa casa, tenho um bom
carro, visto boas roupas; mas nada disso me pertence, tudo
é dado pelo Senhor. Por isso, posso exercer com liberdade
minha vocação. Aliás, esse foi o motivo por que saí da Graça.
Comecei a me sentir um funcionário da igreja, sem aquele
algo mais, sem um desafio. Eu tinha o mais alto salário,
carro à disposição, liberdade para pregar em qualquer lugar;
todos os pastores da Graça me tratavam muito bem, eu era
sempre recebido com festa. Mas não me sentia bem como executivo,
com tarefas meramente burocráticas dentro de uma organização.
Resolvi sair. Hoje, aprendi a lição.
Quando estava em Portugal,
o senhor se queixava de que os evangélicos brasileiros enfrentavam
muitas restrições lá. Essa situação ainda persiste?
Persiste e piora. Digo isso por causa dessa lei xenófoba
da imigração. Quase não são liberados vistos para brasileiros.
O segundo problema gravíssimo que presenciei lá, quando
participei de um congresso da Assembléia de Deus portuguesa,
é que não há comunhão entre a Assembléia de Deus brasileira
e a de lá. O pastor Joel, filho do José Wellington [presidente
da Convenção Geral das Assembléias de Deus do Brasil],
esteve presente também. As lideranças portuguesas não aceitam
os pastores brasileiros que são enviados para lá. Como o
Brasil se tornou um exportador de missionários, maior é
a rejeição. No mundo inteiro, especialmente na Europa, igrejas
com lideranças brasileiras atraem apenas público brasileiro.
As únicas exceções são trabalhos com negros, que são imigrantes
também, vindos de lugares como Cabo Verde, Quênia, Jamaica,
Nigéria.
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